Estudo aponta desafios do diagnóstico de autismo em idosos no Brasil





O Transtorno do Espectro Autista (TEA) costuma ser associado à infância, mas acompanha a pessoa ao longo de toda a vida. Ainda assim, o reconhecimento do autismo em adultos mais velhos permanece pouco discutida e raramente diagnosticada.


Um estudo conduzido por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) chama atenção para esse cenário ao estimar que mais de 300 mil brasileiros com 60 anos ou mais vivem com algum grau do transtorno, muitas vezes sem diagnóstico formal ou acesso a suporte adequado.




O que é o autismo?



  • O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do desenvolvimento do cérebro que afeta a comunicação, a interação social e os comportamentos.

  • O termo “espectro” indica que o autismo se manifesta de maneiras diferentes em cada pessoa, com níveis variados de apoio necessários ao longo da vida.

  • Os sinais mais comuns incluem dificuldades na comunicação verbal e não verbal, desafios na interação social, interesses restritos e comportamentos repetitivos. Em algumas pessoas, também podem ocorrer sensibilidade aumentada a sons, luzes, cheiros ou texturas.

  • Esses sinais costumam aparecer ainda na infância, mas nem sempre são reconhecidos nessa fase, o que pode levar a diagnósticos tardios, inclusive na vida adulta ou na velhice.

  • A identificação precoce do autismo é importante porque facilita o acesso a intervenções e apoios que podem melhorar a autonomia e a qualidade de vida.




As estimativas globais indicam que cerca de 70 milhões de pessoas no mundo vivem no espectro, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).


No Brasil, o tema passou a contar com dados oficiais a partir do Censo Demográfico de 2022, que investigou pela primeira vez a prevalência do TEA no país. Embora os sinais do transtorno apareçam ainda na infância, o diagnóstico em idades mais avançadas segue pouco frequente, especialmente entre a população idosa.


Com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pesquisadores do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da PUCPR identificaram que a prevalência autodeclarada de TEA entre pessoas com 60 anos ou mais foi de 0,86%. Esse percentual equivale a aproximadamente 306.836 indivíduos. A taxa foi ligeiramente maior entre homens, com 0,94%, do que entre mulheres, com 0,81%.



O trabalho foi publicado na revista científica International Journal of Developmental Disabilities em 29 de outubro e reforça a necessidade de ampliar o olhar das políticas públicas para uma população que envelhece com o transtorno, mas permanece em grande parte invisível nos serviços de saúde.


Autismo e envelhecimento ainda pouco estudados


Para a pesquisadora Uiara Raiana Vargas de Castro Oliveira Ribeiro, autora do estudo, os dados revelam uma lacuna importante no conhecimento científico.


“A prevalência do TEA tem crescido nos últimos anos, porém a literatura científica nacional e internacional ainda é escassa em relação ao que se sabe sobre o autismo no contexto do envelhecimento”, afirmou a especialista, em comunicado.

Segundo ela, pessoas que envelhecem no espectro tendem a enfrentar desafios adicionais. Há indícios de redução na expectativa de vida e maior frequência de comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e depressão. Também são observados riscos mais elevados de declínio cognitivo e de problemas clínicos, incluindo doenças cardiovasculares e alterações metabólicas.


Essas condições se somam a dificuldades já conhecidas do TEA, como barreiras na comunicação, maior sensibilidade a estímulos sensoriais e padrões rígidos de comportamento.


“Esses fatores podem dificultar ainda mais o acesso dessa população aos serviços de saúde”, explica a pesquisadora. Para ela, mapear a prevalência do transtorno em idosos é um passo inicial para compreender melhor suas necessidades e orientar ações específicas.

Por que o diagnóstico costuma chegar tarde?


Identificar o TEA em pessoas idosas é um processo complexo. As dificuldades vão desde a escassez de profissionais capacitados até as mudanças nos critérios diagnósticos ao longo das últimas décadas, o que faz com que muitos adultos tenham passado a vida sem uma avaliação adequada.


Além disso, comportamentos comuns no espectro podem ser confundidos com outros quadros clínicos. “Em idosos, características como isolamento social, rigidez comportamental e interesses restritos podem ser interpretadas como sintomas de ansiedade, depressão ou até demência”, explica Uiara.


Por isso, o diagnóstico exige uma análise cuidadosa da trajetória de vida do indivíduo e a avaliação por profissionais especializados.


Apesar de tardio, o diagnóstico costuma ser vivido de forma positiva por muitos idosos. Segundo a pesquisadora, ele frequentemente traz alívio.


“O diagnóstico ajuda a explicar dificuldades sociais e sensoriais enfrentadas ao longo da vida, favorecendo a autocompreensão e a aceitação. Isso permite ressignificar experiências negativas e reduzir sentimentos de inadequação e autocrítica”, diz.





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