
Os antibióticos revolucionaram a medicina ao permitir o tratamento de diversas infecções bacterianas. No entanto, especialistas alertam que o uso inadequado desses medicamentos pode trazer consequências graves para a saúde individual e coletiva, principalmente por favorecer o avanço da resistência bacteriana.
Segundo o professor de infectologia Eduardo Alexandrino Medeiros, da Universidade Federal de São Paulo (USP), um dos primeiros impactos do uso indiscriminado de antibióticos ocorre no próprio organismo.
“O uso de antibióticos altera a microbiota normal do corpo, destruindo bactérias que nos ajudam na digestão e na produção de substâncias importantes para a saúde”, explica. Esse desequilíbrio, chamado de disbiose, pode provocar sintomas como náuseas, vômitos e diarreia, além de aumentar o risco de reações alérgicas e, em casos mais raros, toxicidade no fígado, nos rins ou no sistema nervoso.
Desequilíbrio das bactérias do corpo
O infectologista Fernando Chagas, que atende em João Pessoa, explica que o corpo humano convive com uma enorme quantidade de bactérias benéficas que ajudam a manter o equilíbrio do organismo. Segundo ele, os antibióticos agem eliminando bactérias de forma ampla, inclusive aquelas que ajudam na proteção do organismo.
“Esses medicamentos matam não apenas as bactérias que causam doença, mas também as bactérias protetoras que vivem no nosso corpo. Isso pode desorganizar o equilíbrio do microbioma e abrir espaço para microrganismos que causam infecção”, afirma.
Com o tempo, o organismo tende a recuperar parte dessas bactérias, mas o uso frequente ou desnecessário de antibióticos pode aumentar o risco de desequilíbrios mais duradouros.
Como surge a resistência bacteriana
Um dos principais problemas apontados pelos especialistas é o desenvolvimento da resistência bacteriana. Isso acontece quando o uso inadequado de antibióticos favorece a sobrevivência de microrganismos que conseguem resistir ao medicamento.
De acordo com o infectologista Werciley Júnior, do Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília, quando antibióticos são usados sem necessidade ou de forma incorreta, algumas bactérias sobrevivem e se tornam mais fortes.
“O risco do uso indiscriminado é induzir resistência bacteriana. Com o tempo, bactérias que antes eram sensíveis passam a não responder mais aos medicamentos, o que exige antibióticos cada vez mais fortes ou de classes diferentes”, explica.
Esse processo pode ocorrer por mutações nas bactérias ou por seleção natural: os microrganismos resistentes sobrevivem e passam a se multiplicar.
Os especialistas reforçam que antibióticos devem ser usados apenas quando há suspeita forte ou confirmação de infecção bacteriana. Sinais como febre persistente, presença de pus e exames laboratoriais que indiquem infecção são alguns dos fatores considerados pelos médicos antes de prescrever o medicamento.
O problema, segundo os infectologistas, é que muitas pessoas recorrem ao antibiótico para tratar doenças virais, como gripe e resfriado, situações em que os antibióticos não têm qualquer eficácia.
Um problema crescente de saúde pública
O avanço da resistência bacteriana já preocupa especialistas em todo o mundo. Além de tornar infecções mais difíceis de tratar, o problema pode aumentar o tempo de internação, os custos hospitalares e o risco de complicações graves. Infecções comuns, como pneumonia ou infecção urinária, podem se tornar mais difíceis de tratar quando causadas por bactérias resistentes.
“Estamos vendo cada vez mais situações em que antibióticos tradicionais deixam de funcionar”, lamenta Medeiros.
Os especialistas reforçam que o uso responsável desses medicamentos é essencial para preservar sua eficácia no futuro. Entre as recomendações estão evitar a automedicação, seguir corretamente o tempo de tratamento indicado e nunca utilizar antibióticos sem orientação médica.
Segundo os infectologistas, combater a resistência bacteriana depende não apenas dos profissionais de saúde, mas também de maior conscientização da população sobre os riscos do uso inadequado desses medicamentos.
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