
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em dezembro na revista The Lancet Healthy Longevity, que reuniu dados de mais de 1 milhão de mulheres, concluiu que a terapia hormonal usada na menopausa não está associada ao aumento nem redução significativa do risco de demência ou de comprometimento cognitivo leve em mulheres.
A terapia hormonal da menopausa — também chamada de reposição hormonal ou HRT/MHT — é um tratamento médico que usa hormônios como estrogênio e, em alguns casos, progesterona/progestina, para aliviar sintomas da menopausa, como ondas de calor, suores noturnos e alterações do humor.
Segundo a pesquisa feita no Departamento de Psicologia Clínica, Educacional e da Saúde da University College London, apesar de ser usada há décadas para aliviar sintomas, há debate científico desde os anos 1990 sobre se o uso desses hormônios poderia influenciar o risco de demência em mulheres mais velhas.
Estudos antigos, como alguns ensaios clínicos e observacionais, chegaram a sugerir tanto potenciais benefícios quanto riscos, dependendo da idade de início e do tipo de hormônio.
Diante dessa incerteza, os pesquisadores decidiram reunir e analisar toda a evidência disponível para responder de maneira mais clara a pergunta: a terapia hormonal altera o risco de demência?
O estudo mais recente e seus principais resultados
A análise publicada na The Lancet Healthy Longevity avaliou dados combinados de 10 estudos — incluindo um ensaio clínico randomizado e nove estudos observacionais — com o total de 1.016.055 participantes.
- Nenhuma associação clara foi encontrada entre o uso de terapia hormonal na menopausa e o risco de desenvolver demência ou comprometimento cognitivo leve.
- A análise incluiu diferentes tempos de início do tratamento, duração do uso e tipos de terapia hormonal, e nenhum desses fatores mostrou efeitos significativos sobre o risco de demência.
- Mesmo em mulheres que iniciaram terapia cedo (por exemplo, próximo ao período da menopausa), não houve evidência consistente de proteção ou de aumento do risco de demência.
Os pesquisadores ressaltam que a terapia hormonal ainda tem benefícios claros para tratar sintomas do climatério, mas a escolha de usá-la deve sempre considerar alguns fatores.
O que deve ser avaliado antes de começar a terapia hormonal?
- Os sintomas individuais da paciente.
- Sua história médica pessoal e familiar.
- Os riscos conhecidos, como problemas cardiovasculares e câncer de mama, que são melhor avaliados caso a caso.
Segundo os autores, apesar da enorme quantidade de participantes, muitos dos dados vêm de estudos observacionais que apresentam certeza de evidência “baixa” ou “muito baixa” para determinados desfechos, o que significa que resultados menores ou específicos ainda não podem ser totalmente descartados.
A autora principal, a pesquisadora Melissa Melville, declarou que o objetivo foi reunir a melhor evidência disponível para orientar médicos e pacientes diante de anos de resultados conflitantes, e que os achados sugerem que a decisão de usar terapia hormonal deve se basear nos benefícios esperados para sintomas da menopausa e nos riscos conhecidos, e não na prevenção da demência.
Com base nos resultados dessa revisão abrangente, não há evidência científica forte de que a terapia hormonal aumente ou reduza de forma significativa o risco de demência em mulheres na pós-menopausa.
Além disso, embora essa análise seja a mais abrangente até hoje, a ciência ainda carece de estudos randomizados longos e com maior certeza de evidência, especialmente em grupos de mulheres com menopausa precoce ou com outras condições de saúde específicas.
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